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sábado, 3 de março de 2018

DONA DORA KARATÊ  “MINHA VIDA É UMA LUTA DE MUITOS ROUNDS” (Ligiane Ciola - Maringá )

Quem a vê pela primeira vez, pode imaginar que se trata de uma pessoa frágil até mesmo pela idade, mas é só um ledo engano.  Doraci Maria Carvalho ou simplesmente Dona Dora, tem 68 anos, há 4 luta karatê e já está na faixa vermelha.
O encontro com a equipe de O FATO MANDACARU acontece no salão de beleza de Dona Dora que fica na rua Jalbas Rodrigues Alves – Vila Santa Isabel.  Chegamos com alguns minutos de antecedência e pudemos observar a leveza de seu ser no atendimento a uma cliente. Dona Dora termina o trabalho, troca algumas palavras com a cliente e a ouve atentamente, tudo com um tom de voz baixo e sereno, depois se despede com um abraço e  vem até ao ingresso para nos receber. Decidimos registrar o encontro em vídeo pois o karatê é a luta mais branda que esta corajosa mulher já enfrentou.

Nos cumprimentamos e começamos o combate, que neste caso é uma entrevista;
Ligiane Ciola: Como começou essa história de praticar Karatê ?                                                                           Dora: Começou com a minha neta que praticava karatê na UEM. Ela não gostava de ir sozinha e me pediu para participar das aulas, foi ai que conversei com o professor Marcelo Alessandro Pereira que também é Presidente do Instituto Hagakure de Karatê-Dô Shotokan e ele me disse que eu podia participar sim, que seria bom fazer algumas aulas para experimentar. Eu fiz e não parei mais. No início eu ficava meio perdida, afinal eu já tinha 64 anos mas todo mundo lá, me deu muito apoio e não me deixaram desistir.
ROUND 1960                         
 Ligiane Ciola: É verdade que uma das primeiras lutas que a senhora enfrentou foi contra a ditadura ?          DORA - Eu cheguei em Maringá em 1960 e fui estudar. Na época do golpe militar eu estava no Colégio João XXIII e participava do movimento estudantil contra a ditadura e por várias vezes quase fui presa. Me lembro de uma ocasião que tive que me esconder sob um banco de uma igreja, um milico passou pertinho de mim e não me viu, mas alguns colegas foram presos e apanharam. Hoje quando vejo as pessoas dizerem que querem a volta da ditadura, a volta dos militares, eu fico louca da vida pois nós sofríamos muito com a repressão, pois o estudante era mal visto, a sociedade não tinha liberdade de expressar-se. Só quem não viveu na pele o que nós vivemos pode dizer uma barbaridade dessas.
ROUND 1972                                                      Ligiane Ciola: Mas depois disso sua vida mudou radicalmente, não é mesmo ?                               Mudou sim, eu gostava muito de escrever e até ganhei o primeiro prêmio em um concurso com a matéria sobre  “A VIDA DE UM PALHAÇO”, mas depois disso me casei e parei de estudar, fui morar em Curitiba. Em 1972 voltei a Maringá com um filho e mesmo assim resolvi voltar a estudar.  Lutei muito para completar os meus estudos; primeiro no Colégio Brasílio Itiberê e depois no Colégio Paraná, lá é particular mas eu ganhei uma bolsa de estudos em um concurso da prefeitura e pude terminar o Cientifico em uma excelente escola.

ROUND 1982                                                          Ligiane Ciola: E depois disso veio o vestibular ?                                                                              Dora: Veio sim, passei na UEM em direito mas não pude frequentar, perdi o prazo para fazer a matrícula pois a minha vida estava muito difícil naquele período, me separei e fiquei com dois filhos menores.

ROUND 1992                                                          Ligiane Ciola: Essa foi a luta mais difícil, a senhora pensou em desistir ?                            Dora – Fazer o que ? Aí fui trabalhar, trabalhei bastante, criei meus filhos e voltei a fazer o curso de atendente de enfermagem no SENAC e de lá fui direto para a Santa Casa em 1992 e onde trabalhei 4 anos e depois fui para a cardiologia do Santa Rita, lá trabalhei quase 8 anos, no mesmo período ia uma vez por mês para Curitiba fazer o curso de técnico de enfermagem, com a mochila nas costas, foi muito difícil, eu pegava as matérias lá, voltava para estudar e depois ia fazer os exames. Eu já estava pensando em fazer medicina mas aí conheci o meu segundo marido. Trabalhei um tempo com ele que depois me ajudou a montar o salão. Estava indo muito bem mas tive que me mudar para Curitiba pois meu marido tinha sido transferido para lá. Na capital montei um salão e deu certo e depois de 4 anos voltei para Maringá, abri o salão aqui de novo onde já estou há 10 anos.  A luta continua, sempre.  
ROUND DE MEDALHAS                                                                                                                                     Ligiane Ciola: Mas vamos voltar para o Karatê que está coroando todas essas vitórias na sua vida ?                                                                               Dora: É verdade, hoje sou muito feliz e realizada e não consigo imaginar minha vida sem o karatê. Adoro treinar e competir e já ganhei várias medalhas, uma delas é de ouro, foi uma glória, uma gratidão dentro meu coração, vou até o fim, até chegar a faixa preta. Nunca é tarde para começar, quem tem vontade deve correr atrás do seu objetivo. Tente, se não der certo pelo menos você tentou, não vai ficar frustrada por não ter tentado.