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sábado, 3 de março de 2018

Meta-4: que bicho é este

que quase parou a UEM ?
(Paulo Pupim - Maringá)
 

O software que o governo quer implantar nas universidades estaduais paranaenses é motivo de uma queda de braço envolvendo sindicatos, reitorias e o Palácio Iguaçu

Um software cujo nome se resume em apenas duas palavras, o Meta-4, vem dando muito o que falar nas universidades públicas paranaenses, causando uma queda de braço entre o governo de Beto Richa e os reitores, tendo, a reboque, os sindicatos a puxar o cordão de protesto.
Deixemos de lado, por um momento, a queda de braço. Afinal o que é o Meta-4? Trata se um programa de computador utilizado para fazer a gestão de pessoal e rodar a folha de pagamento. O sistema informatizado é gerenciado pela Secretaria Estadual de Administração e Previdência (Seap).
Para utilizar o Meta 4, o governo comprou, por contrato de licença, o software de uma empresa espanhola do mesmo nome. Outras empresas, públicas e privadas, já adotam o sistema. Algumas delas: Caixa Econômica Federal, Bradesco, Detran e o Boticário.
Uma rápida observada nas prestadoras de serviço especializadas na implementação do software basta para ver que ele promete, em resumo, centralizar a informação dos funcionários numa única plataforma, captar o melhor talento dentro e fora da empresa, facilitar a comunicação entre gestores e trabalhadores e aumentar a produtividade dos funcionários, de quebra reduzindo custo.
Tudo parece canalizar a uma filosofia de meritocracia no ambiente de trabalho. E é justamente aí, temendo que o governo, sem conhecer as especificidades de uma instituição pública de ensino superior, queira administrá-la como se fosse uma empresa particular, que a preocupação aumenta.
MEDO DO META 4
Voltemos à discussão da queda de braço. Ela começou há cinco anos, quando o governo decidiu que as universidades estaduais teriam que entrar no Meta-4. Houve reação. O governo recuou. E voltou ao assunto em 2016, desta vez com mais pressão. Vale dizer que as universidades estaduais do Norte do Paraná (UENP), com sede em Cornélio Procópio, e a Estadual do Paraná (Unespar), aderiram ao sistema desde 2012. Olhando o que ocorreu com elas de lá para cá é que as outras cinco universidades, a de Maringá (UEM), de Ponta Grossa (UEPG), de Guarapuava (Unicentro), de Cascavel (Unioeste) e a de Londrina (UEL) passaram a temer pelo que viria acontecer caso o ingresso no Meta-4 fosse irreversível. E a julgar pelos fatos recentes, aparenta ser irreversível mesmo.
O governo, com o aval do Tribunal de Contas do Estado, ameaçou, em janeiro, a não pagar os salários dos servidores das universidades se elas não enviassem as informações sobre pessoal solicitadas pela Seap. O caldo engrossou. Com carta branca de seu Conselho Universitário, o colegiado máximo da instituição, a reitora da UEL, Berenice Jordão, resolveu encaminhar os dados ao governo, acompanhando as demais universidades. A UEM decidiu não enviar as informações. O Conselho Universitário votou contrário ao encaminhamento dos dados. Os salários atrasaram por cinco dias e foram pagos no dia em que uma greve seria iniciada.
Foi então que o reitor Mauro Baesso, a pedido da Seap, resolveu mandar para a Caixa Econômica Federal ofício

autorizando a transferência do recurso da UEM para a conta dos servidores. Recurso este que estava retido pelo governo.
REITOR DA UEM ENVIOU OFÍCIO AUTORIZANDO PAGAMENTO DOS SALÁRIOS MAS PARA GOVERNO O RECEBEU ADESÃO AO META 4
Baesso tomou a decisão com o aval do Conselho Universitário. O COU votou pelo envio do ofício sob o entendimento de que o documento apenas permitiria que o dinheiro para o pagamento dos salários fossem processados a partir do novo Siaf (Sistema Integrado de Finanças Públicas), sem que isso significasse a adesão automática ao Meta-4. Já, o governo entendeu o contrário. Fevereiro está chegando ao fim e uma nova onda de tensão paira no ar: se a Reitoria não encaminhou as informações exigidas para o ingresso no Meta-4 é possível outro atraso dos salários.
Mas, se de um lado o bolso vazio no final do mês causa arrepios, de outro os servidores temem ainda outras consequências pela eventual adesão ao sistema. Eles citam, por exemplo, o corte abrupto de funções gratificadas. Hipótese este levantada pelo presidente do Sindicato dos Funcionários da Unioeste, o Sinteoeste, Giancarlo Tozo.
PARA REITORES META 4 É “DESMONTE DO ENSINO PÚBLICO”
Como se fosse pouco, os pró-reitores de pesquisa e pós-graduação e os reitores se referem ao Meta-4 como um passo decisivo para o desmonte do ensino superior público estadual. Na avaliação deles, como o sistema de decisão ficaria centralizado em Curitiba, longe da realidade cotidiana das universidades, as instituições perderiam a agilidade burocrática em liberar professores para pós-graduação ou mesmo para viajarem a um congresso científico, dentro ou fora do Brasil. Com isso, a capacitação docente, num ritmo mais lento, provocaria queda na produção científica e na inovação tecnológica, justamente nas áreas em que universidades como a UEM e a UEL se despontam nos ranking das agências de avaliação espalhadas pelo mundo. GUERRA DE INFORMAÇÕES E BOATOS
Enquanto isso, a queda de braço prossegue. Um dos capítulos mais recentes, também um dos mais emblemáticos, ocorreu em meados de janeiro, quando o governo fez circular, especialmente pelas redes sociais, a notícia de que a UEM pagava super salários a uma casta de trabalhadores, na média de R$ 50 a 80 mil reais. A opinião pública, claro, reagiu cobrando explicações e assimilando o discurso de que o Meta-4 coibiria tudo isso, devido à transparência de informações inerente ao sistema. E é nesta guerra de informações e boatos que a batalha promete novos capítulos.
Indignado, o pró-reitor de Recursos Humanos e Assuntos Comunitários da UEM, Luiz Octávio, desmentiu categoricamente a notícia, chegando a gravar um áudio que também ganhou a rede social whatsApp. Em suma, ele explicou que existem pessoas com dois vínculos empregatícios. Veja um exemplo: num período da jornada diária o servidor dá aulas e no outro trabalha como médico, atendendo pacientes no hospital universitário. Quando chegou no final de 2017, o mesmo profissional recebeu dois salários, dois décimos terceiros e dois adicionais de férias, o que chegou à remuneração de cerca de R$ 60 mil. Outro caso esclarecido pelo pró-reitor foi o de uma servidora que queria reenquadramento na carreira, passando a receber como advogada. Como era funcionária antiga, ele teria direito aos pagamentos retroativos pelo tempo de atuação na UEM. Resultado: a remuneração em dezembro chegaria em torno de R$ 300 mil. Conforme Luiz Octávio, a universidade deu parecer contrário ao reenquadramento, a funcionária não recebeu os R$ 300 mil, mas o governo teria mantido no Portal da Transparência o valor como se verdade fosse.