“SE NÃO FOSSE O MST, PODE TER CERTEZA
QUE TERÍAMOS MUITO MAIS VIOLÊNCIA NO CAMPO”(JOSÉ DAMASCENO MEMBRO DO MST)
O Movimento dos Agricultores Sem Terra teve origem
na década de 70 opondo-se ao modelo de reforma agrária proposto pelo regime
militar que priorizava a colonização de terras em regiões remotas da nação,
enquanto agricultores queriam a desapropriação e redistribuição das terras
improdutivas, como previsto na Constituição brasileira.
NA FOTO - JOSÉ DAMASCENO MEMBRO DA COORDENAÇÃO ESTADUAL MST
POR QUE O MST NASCEU NO PARANÁ E POR QUE NO OESTE ?
No início dos anos 80, o Paraná acelerava a
implantação de um modelo agrícola baseado na mecanização da lavoura. O “avanço”
se adaptava a culturas agrícolas que empregam pouca mão de obra. Soja, milho e
trigo em substituição a café, arroz, feijão e algodão fez engrossar a fila dos
desempregados no campo. Outro fator que agravou a situação no Estado foi a
construção da barragem de Itaipu, que desapropriou terras produtivas e obrigou
agricultores e trabalhadores a procurarem novas oportunidades em outras regiões
do Paraná. Obviamente só encontraram muitos outros desempregados do campo. Em 1984, veio a oficialidade. Agricultores de
12 Estados da União participaram em Cascavel no Paraná, ao 1º encontro dos
trabalhadores rurais sem terra.
FEIRÃO DA RESISTÊNCIA E DA REFORMA AGRÁRIA “É
EXERCICIO PEDAGÓGICO COM A SOCIEDADE”
Dia 10 de Março, o barracão do 3241 da Avenida Duque
de Caxias de Londrina, ocupado pela associação dos artistas de rua, dito MARL,
dividiu espaço pela oitava vez com o Feirão da Resistência e da Reforma Agrária.
Foi lá que encontramos José Damasceno, membro da coordenação estadual do MST no
Paraná, que é categórico sobre o tema: “Se não fosse a luta desses
trabalhadores durante os 34 anos de existência do MST, o tema da reforma
agrária já teria saído da pauta da sociedade brasileira e da agenda política
dos governantes.”
NATUREZA, FUNÇÃO E META
Sobre a natureza do movimento Damasceno disse a O
FATO MANDACARU: “ São Homens, mulheres e crianças que reivindicam, e lutam pelo
direito a cultivar terras não produtivas ou que não cumprem suas funções
sociais. Nosso objetivo principal é a reforma agrária”.
Sobre a função do movimento, Damasceno divide o tema
em três partes: “O MST em primeiro lugar cumpre exatamente o papel de
pressionar as autoridades para que não deixem de pautar a reforma agrária na
agenda política. A segunda função é fazer a reforma agrária acontecer. E muito
mais do que lutar pelas desapropriações de terras improdutivas ou griladas, a
função do MST é gerar empregos, gerar renda para as famílias“.
O feirão da resistência é para o membro do MST um
exercício pedagógico que visa aproximar a população àquilo que o MST produz de
bom, alimentos livres de agrotóxicos. Verduras, frutas, embutidos, conservas,
tudo orgânico e de excelente qualidade e faz contraponto ao agronegócio. “Aqui se trata de produzir alimento saudável,
diz Damasceno, e não simplesmente produzir para exportar. Se trata de alimentar
as famílias assentadas, gerar empregos no campo e produzir alimentos saudáveis
para a sociedade. Enquanto o agronegócio produz pensando no equilíbrio da
balança comercial, produz só soja para servir de ração para rebanhos europeus e
não deixa nada na mesa do brasileiro, a reforma agrária em curso com seus
assentamentos faz o contrário; nós levamos o alimento direto para a mesa do
brasileiro e não envenenamos a terra, as águas e os cidadãos. Esse é o futuro para o mundo todo. Produzir
alimentos saudáveis dá certo”.
Se nos Feirões da resistência de Londrina que
acontecem sempre no segundo sábado de cada mês, sempre no Marl, é possível encontrar-se
com a qualidade dos produtos orgânicos do MST, pode ser que não baste a render
ideia da dimensão do feito a nível nacional. Informação sobre isso porém não
falta. A internet está lotada de dados oficiais que comprovam que a teoria de
Damasceno está funcionando. No ano passado, o MST se tornou o maior produtor de
arroz orgânico da América Latina. A safra no Rio Grande do Sul foi de mais de
27 mil toneladas, produzidas em 22 assentamentos e envolvendo 616 famílias
gaúchas. O movimento já tem também em sua coleção, o recorde na produção de
sementes não transgênicas.
QUEM TEM MEDO DO MST
?
Mas se tudo isto está dando certo porque ainda há
tanta rejeição ao MST por parte da sociedade? A resposta está na ponta da
língua do mesmo José Damasceno: “A mídia empresarial deste país nos taxa de
baderneiros, e por muito tempo não tivemos meios e espaço para responder, mas
hoje digo: Se não fosse o MST pode ter certeza que teríamos muita violência no
campo. O MST não ocupa terras, o MST orienta pessoas que já iam ocupar terras
independentemente dele existir ou não. Nós somos contra a violência e na
verdade somos vítimas dela. O MST é um movimento que luta pela vida e bem por
isso é pacifico, ele não agride a vida nem o meio ambiente”.


