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sexta-feira, 30 de março de 2018

QUEM TEM MEDO DO MST?



“SE NÃO FOSSE O MST, PODE TER CERTEZA QUE TERÍAMOS MUITO MAIS VIOLÊNCIA NO CAMPO”(JOSÉ DAMASCENO MEMBRO DO MST) 




O Movimento dos Agricultores Sem Terra teve origem na década de 70 opondo-se ao modelo de reforma agrária proposto pelo regime militar que priorizava a colonização de terras em regiões remotas da nação, enquanto agricultores queriam a desapropriação e redistribuição das terras improdutivas, como previsto na Constituição brasileira.

NA FOTO - JOSÉ DAMASCENO MEMBRO DA COORDENAÇÃO ESTADUAL MST


POR QUE O MST NASCEU NO PARANÁ E POR QUE NO OESTE ?
No início dos anos 80, o Paraná acelerava a implantação de um modelo agrícola baseado na mecanização da lavoura. O “avanço” se adaptava a culturas agrícolas que empregam pouca mão de obra. Soja, milho e trigo em substituição a café, arroz, feijão e algodão fez engrossar a fila dos desempregados no campo. Outro fator que agravou a situação no Estado foi a construção da barragem de Itaipu, que desapropriou terras produtivas e obrigou agricultores e trabalhadores a procurarem novas oportunidades em outras regiões do Paraná. Obviamente só encontraram muitos outros desempregados do campo.  Em 1984, veio a oficialidade. Agricultores de 12 Estados da União participaram em Cascavel no Paraná, ao 1º encontro dos trabalhadores rurais sem terra. 
FEIRÃO DA RESISTÊNCIA E DA REFORMA AGRÁRIA “É EXERCICIO PEDAGÓGICO COM A SOCIEDADE”
Dia 10 de Março, o barracão do 3241 da Avenida Duque de Caxias de Londrina, ocupado pela associação dos artistas de rua, dito MARL, dividiu espaço pela oitava vez com o Feirão da Resistência e da Reforma Agrária. Foi lá que encontramos José Damasceno, membro da coordenação estadual do MST no Paraná, que é categórico sobre o tema: “Se não fosse a luta desses trabalhadores durante os 34 anos de existência do MST, o tema da reforma agrária já teria saído da pauta da sociedade brasileira e da agenda política dos governantes.”



NATUREZA, FUNÇÃO E META
Sobre a natureza do movimento Damasceno disse a O FATO MANDACARU: “ São Homens, mulheres e crianças que reivindicam, e lutam pelo direito a cultivar terras não produtivas ou que não cumprem suas funções sociais. Nosso objetivo principal é a reforma agrária”.
Sobre a função do movimento, Damasceno divide o tema em três partes: “O MST em primeiro lugar cumpre exatamente o papel de pressionar as autoridades para que não deixem de pautar a reforma agrária na agenda política. A segunda função é fazer a reforma agrária acontecer. E muito mais do que lutar pelas desapropriações de terras improdutivas ou griladas, a função do MST é gerar empregos, gerar renda para as famílias“.
O feirão da resistência é para o membro do MST um exercício pedagógico que visa aproximar a população àquilo que o MST produz de bom, alimentos livres de agrotóxicos. Verduras, frutas, embutidos, conservas, tudo orgânico e de excelente qualidade e faz contraponto ao agronegócio.  “Aqui se trata de produzir alimento saudável, diz Damasceno, e não simplesmente produzir para exportar. Se trata de alimentar as famílias assentadas, gerar empregos no campo e produzir alimentos saudáveis para a sociedade. Enquanto o agronegócio produz pensando no equilíbrio da balança comercial, produz só soja para servir de ração para rebanhos europeus e não deixa nada na mesa do brasileiro, a reforma agrária em curso com seus assentamentos faz o contrário; nós levamos o alimento direto para a mesa do brasileiro e não envenenamos a terra, as águas e os cidadãos.  Esse é o futuro para o mundo todo. Produzir alimentos saudáveis dá certo”.
Se nos Feirões da resistência de Londrina que acontecem sempre no segundo sábado de cada mês, sempre no Marl, é possível encontrar-se com a qualidade dos produtos orgânicos do MST, pode ser que não baste a render ideia da dimensão do feito a nível nacional. Informação sobre isso porém não falta. A internet está lotada de dados oficiais que comprovam que a teoria de Damasceno está funcionando. No ano passado, o MST se tornou o maior produtor de arroz orgânico da América Latina. A safra no Rio Grande do Sul foi de mais de 27 mil toneladas, produzidas em 22 assentamentos e envolvendo 616 famílias gaúchas. O movimento já tem também em sua coleção, o recorde na produção de sementes não transgênicas.
QUEM TEM MEDO DO MST  ? 
Mas se tudo isto está dando certo porque ainda há tanta rejeição ao MST por parte da sociedade? A resposta está na ponta da língua do mesmo José Damasceno: “A mídia empresarial deste país nos taxa de baderneiros, e por muito tempo não tivemos meios e espaço para responder, mas hoje digo: Se não fosse o MST pode ter certeza que teríamos muita violência no campo. O MST não ocupa terras, o MST orienta pessoas que já iam ocupar terras independentemente dele existir ou não. Nós somos contra a violência e na verdade somos vítimas dela. O MST é um movimento que luta pela vida e bem por isso é pacifico, ele não agride a vida nem o meio ambiente”.