O DIÁRIO DO NORTE DO PARANÁ: Dos 8
meses de resistência de 1977 aos dias de hoje, que não estão no texto Laércio
Souto Maior :Escritor, historiador e jornalista
É quase impossível fazer um jornal independente,
de oposição autêntica no interior do Brasil, em qualquer época, em qualquer
tempo. Os poucos que ousaram tiveram vida curta.
Forças terríveis se levantaram contra
eles com unhas e dentes e não descansaram um minuto até derrotarem os
libertários que tiveram a coragem de enfrentá-las. Se na normalidade
democrática já é difícil manter circulando jornais de oposição, avaliem em
plena Ditadura Militar fascista sob a égide do AI-5. Era uma temeridade.
O desafio foi aceito pelo Ramires
Moacir Pozza, jovem empresário que gerenciava as empresas da família na década
de 1970. Com 17 anos, era dirigente estadual do Movimento Estudantil Livre
(MEL) e militava como comandante do setor de inteligência da “Organização”,
movimento clandestino que formava e estruturava em Maringá e na região Noroeste
do Estado do Paraná, quadros revolucionários para apoiar o sonhado levante
popular liderado pelo governador Leonel Brizola na sua tentativa de recuperar o
poder para as forças democráticas alijadas do poder.
Quando a família Pozza comprou 50%
das ações tornando-se sócia majoritária do grande jornal do Norte do Paraná (o
jornalista Franklin Vieira da Silva e Edson Castilho, detinham cada um 25% das
ações do “Diário do Norte do Paraná”, portanto eram sócios minoritários sob o
mando dos Pozzas), o Ramires me convidou para assumir o comando como
redator-chefe a partir do mês de janeiro de 1977. Aceitei sob as seguintes
condições: carta branca em relação aos donos do jornal (ele, Franklin Vieira da
Silva e Edson Castilho) para imprimir uma linha de oposição ao poder a nível
municipal, estadual e federal e liberdade para montar uma nova equipe composta
pelos jornalistas José Carlos Struett, Edilson Pereira dos Santos, Manoel
Messias Mendes, Ernesto Luiz Piancó Morato, Anésio Folleis Filho, Roberto de
Freitas Pardal, Olício Profeta, Valdir Pinheiro, Luiz Carlos Rizzo, Claudio
Folleiss, Pedro Chagas Neto e Angelo Rigon. A partir da minha ascensão ao
cargo, a redação do “Diário do Norte do Paraná” tornou-se um território livre,
quase um coletivo libertário, codirigido pelo redator-chefe, repórteres,
diagramadores, fotógrafos e chargista.
Foram oito meses de luta e
resistência contra tudo de errado que acontecia na cidade, no estado e no país.
Nada nos atemorizava. Com a lança sempre empunhada, investíamos contra o regime
militar; contra os empresários que poluíam a cidade com seus frigoríficos e
fábricas de ossos que infestavam os ares de Maringá com uma fedentina horrível;
contra os embusteiros da religião (TFP); contra órgãos públicos (BNH) que não
respeitavam os contratos com os proprietários; contra os maus vereadores da
nossa Câmara Legislativa; contra os erros e maus feitos da Prefeitura;
bicheiros; policiais torturadores, etc. Raro era o dia em que o jornal não era
visitado por algum poderoso contrariado em seus interesses pela linha imprimida
pelo “Diário do Norte do Paraná”: independente, democrática, oposicionista e
libertária.
Enquanto durou o período ora descrito
neste artigo, as denúncias e críticas radicais foram crescendo numa cadência
nunca vista na imprensa da Cidade Canção até o momento em que o governador
Jaime Canet Junior em comum acordo com o prefeito João Paulino Vieira Filho
deram um basta definitivo ao radicalismo oposicionista praticado pelos jovens
mosqueteiros apelidados de “vermelhos” que formavam a equipe indômita de
jornalistas que infernizava a vida dos empresários e políticos fascistas
maringaenses, forçando o patriarca da família Pozza, Provino Pozza, a vender
sua parte (majoritária) ao jornalista Frank Silva.
Com o passar do tempo, analisando sem
paixão a experiência do jornalismo libertário praticado naquele período
perigoso em que o Brasil vivia sob a égide da Ditadura Militar, pode-se chegar
ou não, a seguinte conclusão: valeu a pena tanta coragem e ousadia para no
final jogar nos braços dos conservadores e da direita da cidade de Maringá um
dos mais importantes jornal da impressão.


