por José Maschio
Fotos: Joka Madruga
Anunciado como o maior evento da magistratura brasileira, o XXIII Congresso Brasileiro de Magistrados, que aconteceu no final de semana na bela Maceió (AL), serviu para mostrar a verdadeira face do Judiciário Nacional. E tem uma cara feia, o Judiciário. Enquanto busca maior protagonismo político na esfera nacional, revela uma inaptidão natural e histórica para um mínimo de democracia interna.
Essa
cara feia do Judiciário precisa ser explicitada. Nas falas de autoridades e
ministros convidados, as palavras humanismo, transparência e liberdade de
expressão foram quase um mantra. Um mantra repetido inúmeras vezes, mas
abandonado na prática.
A
começar pela principal temática do Congresso, repetida à exaustão: a
politização do Judiciário ou a Judicialização da Política? Um tema que poderia
esclarecer ao que o Judiciário brasileiro se destina.
Mas cada
juiz da primeira instância que participou do evento deve ter saído apenas com o
ponto de interrogação da equação. Não respondida claramente nem pela
organização do congresso, nem pelos palestrantes.
A tão
propalada transparência deixou de existir em situações práticas. Como a da
ministra Carmem Lúcia, presidente do STF (Supremo Tribunal Federal) permitiu à
imprensa apenas cinco minutos de imagens na sua fala. Falou por trinta minutos
com a imprensa censurada.
Não
falou nada além de elogios aos nobres juízes presentes, mas impôs a censura
pela empáfia de um histórico de verticalização do Judiciário, onde poucos falam
e muitos apenas ouvem.
Ou pela
indisposição do presidente da AMB (Associação dos Magistrados Brasileiros),
Jayme de Oliveira, em conceder entrevista à Terra Sem Males. Sua assessoria,
procurada nos três dias do evento, tinha sempre uma desculpa. E a equação
judicialização ou politização não foi esclarecida.
No
jornalismo, existe uma máxima que quase sempre a verdade está no que não é dito
ou escrito. Está nas entrelinhas e no silêncio. E nisso o congresso de Maceió
foi pródigo. Escancarou que o Judiciário tem lado. E este lado não é o do povo
ou da soberania popular.
A
começar pelos políticos convidados. Senadora Ana Amélia (PP- RS). Ela mesma,
que conclamou os gaúchos a atacarem a caravana do ex-presidente Lula, quando
ainda não preso, em visita ao Rio Grande do Sul. A conservadora Ana Amélia, não
por acaso, é autora de uma PEC (Projeto de Emenda Constitucional) que propõe
alteração na indicação de ministros ao STF. Convidada de honra acabou por
dar ´´bolo`` ao congresso.
Outro
convidado, o presidente da câmara Federal Rodrigo Maia (DEM) usou o congresso
para proselitismo político. E foi interessante notar que Maia nem mesmo se deu
ao trabalho de assistir palestra de sua ´´aliada``, nas palavras do presidente
da AMB, Jayme Oliveira.
A
palestra era da juíza Renata Gil, vice-presidente da AMB, que mostrava a
situação de conflagração social no Rio de Janeiro. Graças ao crime organizado e
das milícias (notadamente de PMs). A milícia é um Esquadrão da Morte moderno,
com ares de empreendedorismo tão ao gosto dos liberais.
Além deles
outro convidado, Ronaldo Cunha (deputado alagoano), mostrou o viés político
partidário do congresso da AMB. Cunha é de Alagoas (interessante chamar alguém
da casa) e mais: é a única peça no tabuleiro eleitoral alagoano que possa fazer
PSDB, PP e DEM evitarem a reeleição de Renan Filho (MDB) ao governo.
Em um
Judiciário em que os membros da Suprema Corte são tratados como heróis, a mídia
tinha mesmo que ser cortejada. No painel A Mídia e o Judiciário, as emissoras
Record e Rede TV foram agraciadas. Coube ao presidente da Rede TV, Amilcare
Dallevo Júnior, uma das comparações mais emblemáticas do evento.
Essa
comparação, não se sabe com ironia, sarcasmo ou por ele acreditar mesmo nisso
foi reveladora. Dallevo Júnior enumerou quatro pontos em comum entre Judiciário
e Mídia livre (o livre é nas palavras dele): independência, transparência,
credibilidade e imparcialidade.
O presidente
da Rede TV ressuscitou um mito, o da imparcialidade da imprensa, que nenhum
aluno de jornalismo ou Comunicações, ainda na sua fase caloura, acredita mais.
Quanto aos três outros itens, basta buscar nas pesquisas de opinião, obra
da própria mídia, para saber o que pensa a população sobre Judiciário e Mídia.
E os magistrados que foram Congresso, o que pensam?
Em um
congresso realmente grande, ´´cerca de`` mil e trezentos juízes presentes, na
informação nada precisa da Assessoria de Imprensa da AMB, seria interessante
saber o que pensam os presentes. Homens e mulheres que enfrentam ´´ a
verdadeira pedreira da magistratura``, nas palavras do bajulador ministro Marco
Aurélio Mello. Nada disseram. Não tinham voz.
Coube ao
congressista presente o papel de ouvinte. Nos painéis, os palestrantes
palestravam os ouvintes ouviam e aplaudiam, especialmente quando o crescimento
da participação da mulher na magistratura era mencionado. E os palestrantes, em
busca do aplauso fácil, sempre mencionavam. Vale lembrar que 37,3% dos cargos
da magistratura nacional são ocupados por mulheres.
Sem vez e
sem voz, cabia auscultar e perscrutar o que pensavam juízas e juízes dos vários
rincões do país na morna e molhada Maceió. Em um Judiciário cada vez mais disposto
a ter participação política efetiva, seriam politizados os juízes? Em
meio ao burburinho dos cafés ou águas de coco (cortesia da Sococo, uma das
patrocinadas do evento) era possível perceber.
E perceber uma
triste realidade. Em nível de politização, nossas juízas e juízes, notadamente
de primeira instância, nada devem aos caminhoneiros autônomos que exercem o
democrático direito de greve a pedir intervenção militar. Apesar de estarem, os
magistrados, no topo da pirâmide social brasileira.
Como aquela
juíza do sul, a se indignar com o acampamento Marisa Letícia, em Curitiba.
Organizado pelo movimento Lula Livre, de petistas e lulistas em apoio ao
ex-presidente preso. Segundo ela, na sua lógica e moral cristã, os militantes
levam crianças em passeatas de quilômetros, em uma afronta à dignidade humana.
Ou daquele
magistrado baiano, que insistia que o Exército devia ser instado ´´a
trabalhar``, seja na construção de ferrovias ou na repressão aos caminhoneiros
que impedem que o combustível possa chegar aos aeroportos.
Isso talvez
explique os aplausos ao economista Eduardo Gianeti da Fonseca no painel Visão
do Momento Econômico. Gianeti, em um malabarismo próprio dos tucanos, conseguiu
a proeza de elogiar os caminhoneiros pela greve e ao presidente da Petrobrás,
Pedro Parente, responsável pela greve com seus constantes aumentos para atender
aos acionistas. Tudo isso em uma única frase.
Temas urgentes
como a prisão após decisão em segunda instância, que contraria preceito
constitucional, sequer foi mencionado para debate no congresso dos magistrados.
Assim como a questão do imoral auxílio moradia para magistrados, que parece ser
tema pacificado e naturalizado entre os integrantes do Judiciário brasileiro.
Uma juíza ao
saber de que as recepcionistas, contratadas para dar leveza e beleza ao
Congresso, ganhavam uma diária de R$ 85, 00 reais por mais de dez horas de
trabalho. Saiu-se com uma postura bem brasileira: ´´tadinhas delas``. Nenhuma
preocupação outra que não o jantar de sábado, já que o do dia anterior tinha
sido ´´ muito fraquinho, pobre`.
Talvez e só
talvez, a postura da juíza do centro-oeste brasileiro explique porque juízes,
salvo exceções, não se rebelam contra a falta de democracia interna, em que um
juiz de primeira instância, por exemplo, não pode votar na eleição do
presidente do TJ (Tribunal de Justiça) do seu Estado.
Essa
verticalização do Judiciário, que impõe o institucional e o espírito de corpo
acima de tudo leva a situações extremas. Juízes e juízas ouvidos consideram natural
a organização buscar patrocinadores para o evento. Mesmo que sejam eles, os
patrocinadores, motivos de demandas judiciais que eles, os juízes, terão que
decidir.
Uma dos
maiores patrocinadores do congresso, a Qualicorp, administradora de planos de
saúde, trabalha com planos campeões de reclamações na Justiça, como a Sul
América, Bradesco Saúde, Golden Cross, Salutar, Promed e Unimed.
A participação
das empresas privadas, notadamente aquelas com demandas judiciais, além da
efetiva presença do governo federal no patrocínio (via Itaipu, Caixa Econômica
Federal e Petrobrás) do evento aponta outro problema. A violação do princípio
de independência judicial.
Essa violação
foi objeto de denúncia, no último abril, pela JUSDH, Articulação Justiça e Direitos
Humanos, na ONU. A JUSDH denunciou exatamente essa influência de empresas no
Judiciário brasileiro.
A frase
do ministro Humberto Martins, vice-presidente do STJ (Superior Tribunal de
Justiça), na conferência de encerramento sintetiza o distanciamento que existe
entre o Judiciário militante, político e a realidade nacional. ´´ A
sociedade acredita no Judiciário brasileiro``. Martins, na sua eloquência
nordestina, só esqueceu uma coisa: consultar o povo brasileiro.
Fim.






