Por BRENO THOMÉ ORTEGA
“... essas fotografias, e o documentário
que estou fazendo serão exibidos em Maringá e em São Paulo também. Esses
quadros vou colocar à venda esse dinheiro vou reverter a Comunidade”.
Oi, meu nome
é Breno, sou fotografo de Maringá e a respeito de Brumadinho, assim
que eu soube do rompimento da barragem, foi algo que impactou muito e para mim
não fazia sentido nenhum, não estar lá, me colocar à disposição, me colocar lá de coração aberto pra ajudar
mesmo que minimamente a população que foi direta ou indiretamente atingida
por esse crime que a Vale cometeu.
![]() |
| Breno Thomé Ortega visitou a Tribo Patachó, comunidade esquecida dentro da tragédia |
Eu cheguei
lá numa quinta-feira, 6 dias depois do rompimento da barragem, cheguei lá sem
saber onde ia ficar, sem saber de nada, só sabia que ia chegar em Brumadinho.
A partir daí
comecei a conhecer muitas pessoas, pessoas que acabaram me ajudando, e hoje
posso chamar de amigos, são pessoas que estavam lá também de coração aberto
para ajudar essas pessoas, ajudar as vítimas desse crime.
Conforme as
coisas foram acontecendo foi difícil de dirigir e olhar pra tudo aquilo, olhar
para aquele mar de lama, olhar para aquele cenário de destruição completa, sentir
o cheiro de morte no ar, ver corpos voando pelo ar, sendo carregados pelos helicópteros,
bombeiros com lama até a cabeça, é um estado de calamidade pública mesmo, é
algo muito difícil de ser visto, é algo muito difícil de ser sentido, e toca a
gente muito profundamente no coração.
Estando em Brumadinho, eu queria muito ajudar, eu queria fazer de tudo através do meu trabalho que é a fotografia, que é a filmagem e colocar a mão na massa que pudesse ajudar a população.
ALDEIA DOS
PATACHÓS
No sábado eu fui para aldeia dos Patachós, que é uma comunidade indígena que está situada às margens do Rio Paraopeba que o rio que foi atingido pela lama da barragem, ali eu senti uma necessidade muito grande de registrar o sofrimento desse povo, por que a Vale está sendo omissa com eles, tanto com a aldeia como com o assentamento do MST que estava ali do lado, eram duas comunidades, centenas de famílias que dependiam diretamente da renda proveniente do rio da pesca.
Utilizavam dessa
água para irrigar suas plantações, para beber, para tomar banho, para os seus rituais
sagrados, então foram comunidades que foram diretamente atingidas.
Hoje essas comunidades estão passando
muitas necessidades e estão recebendo apoio de voluntários.
As instituições públicas não estão
ajudando do modo que deveriam, a Vale
não está ajudando do modo que deveria, então eu senti uma necessidade de
tentar ajudar essa população.
Eu fiquei 4
dias na aldeia vivendo um pouco o dia a dia deles, captando imagens para fazer
um documentário e fazendo algumas fotografias também.
É triste
demais, porque o rio está completamente
morto, quilos e quilos de peixes sendo retirados, urubus sendo achados
mortos, um cheiro de carniça muito forte.
O que eu
posso lhe dizer, para resumir toda a situação lá é a morte, só que ao mesmo
tempo tem um sentimento de vida, de luta, de força e de resistência de toda
essa população que não vai abrir mão de suas terras, não vai abrir mão de sua
vida nessa região e vai lutar contra esse descaso a população e ao Meio
Ambiente da mineradora da Vale.
Então essas fotografias, esse documentário que
estou fazendo serão exibidos em Maringá e em São Paulo também. Esses quadros
vou colocar à venda esse dinheiro vou reverter a Comunidade.
Agora eles precisam
reaver todo o sistema logístico de sobrevivência, eles vão precisar ter
reservatório de água, de novas fontes de alimentação, por conta da morte do
rio.
Estar em Brumadinho
para mim foi uma experiência única, e encontrar pessoas que viveram de corpo e
alma, os bombeiros que são verdadeiros
heróis que estavam nadando na lama, para dar um conforto aos familiares que
ficaram na espera de notícias, para poderem enterrarem seus parentes e darem
sequência na vida.
Aquela cena
de ver aquela imensidão de lama e destruição parte muito o coração.
Eu espero
que a partir de agora, com tudo isso que aconteceu, seja uma lição para que haja
menos ganância, para que haja mais fiscalização, para que as pessoas se preocupem
mais com a qualidade de vida do próximo, se preocupem com o meio ambiente e não
com o lucro, que não é isso que importa na vida, o que importa são as pessoas,
o que importa é a natureza, o que importa somos nós, é a comunidade.
O que a
Vale fez deixa claramente em evidência que não é com isso que ela se preocupa.
Os dirigentes
da Vale e os donos da Vale se preocupam basicamente com o lucro, e esse lucro
em Brumadinho veio às custas de centenas de vidas.
Só espero
que a comunidade tenha forças para se reerguer, tenha forças para continuar
lutando, enfrente seu luto mas tome isso como um combustível para a alma, e que
toda a população enxergue isso como um despertador.
Vamos acordar para a vida porque tem
coisas muita mais importantes do que o dinheiro. Nem todo o dinheiro do mundo vai trazer
de volta Brumadinho, aquelas vidas de volta e o rio de volta.
O rio está morto, centenas de pessoas estão mortas, centenas de animais estão mortos e isso não pode ficar impune.
Valeu, um
abraço
Breno.











