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sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

EM PRIMEIRA PESSOA: A TRAGÉDIA DA GENTE DE BRUMADINHO NAS LENTES DO FOTÓGRAFO MARINGAENSE BRENO THOMÉ ORTEGA.

Essa reportagem fotográfica e o relato escrito em primeira pessoa, é obra do Fotógrafo BRENO THOMÉ ORTEGA, estudante de economia da UEM, membro do Coletivo Don´t Blink, nessa ocasião, correspondente para O FATO. Breno esteve em Brumadinho e trabalhou na produção de fotografias e de um documentário, cuja renda será inteiramente revertida às comunidades vitímas do desastre.

Por BRENO THOMÉ ORTEGA







“... essas fotografias, e o documentário que estou fazendo serão exibidos em Maringá e em São Paulo também. Esses quadros vou colocar à venda esse dinheiro vou reverter a Comunidade”.











 





 Oi, meu nome é Breno, sou fotografo de Maringá e a respeito de Brumadinho, assim que eu soube do rompimento da barragem, foi algo que impactou muito e para mim não fazia sentido nenhum, não estar lá, me colocar à disposição, me colocar lá de coração aberto pra ajudar mesmo que minimamente a população que foi direta ou indiretamente atingida por esse crime que a Vale cometeu.




Breno Thomé Ortega visitou a Tribo Patachó,
comunidade esquecida dentro da tragédia

Eu cheguei lá numa quinta-feira, 6 dias depois do rompimento da barragem, cheguei lá sem saber onde ia ficar, sem saber de nada, só sabia que ia chegar em Brumadinho.
A partir daí comecei a conhecer muitas pessoas, pessoas que acabaram me ajudando, e hoje posso chamar de amigos, são pessoas que estavam lá também de coração aberto para ajudar essas pessoas, ajudar as vítimas desse crime.


Conforme as coisas foram acontecendo foi difícil de dirigir e olhar pra tudo aquilo, olhar para aquele mar de lama, olhar para aquele cenário de destruição completa, sentir o cheiro de morte no ar, ver corpos voando pelo ar, sendo carregados pelos helicópteros, bombeiros com lama até a cabeça, é um estado de calamidade pública mesmo, é algo muito difícil de ser visto, é algo muito difícil de ser sentido, e toca a gente muito profundamente no coração.








 Estando em Brumadinho, eu queria muito ajudar, eu queria fazer de tudo através do meu trabalho que é a fotografia, que é a filmagem e colocar a mão na massa que pudesse ajudar a população.


ALDEIA DOS PATACHÓS


No sábado eu fui para aldeia dos Patachós, que é uma comunidade indígena que está situada às margens do Rio Paraopeba que o rio que foi atingido pela lama da barragem, ali eu senti uma necessidade muito grande de registrar o sofrimento desse povo, por que a Vale está sendo omissa com eles, tanto com a aldeia como com o assentamento do MST que estava ali do lado, eram duas comunidades, centenas de famílias que dependiam diretamente da renda proveniente do rio da pesca.



Utilizavam dessa água para irrigar suas plantações, para beber, para tomar banho, para os seus rituais sagrados, então foram comunidades que foram diretamente atingidas.
Hoje essas comunidades estão passando muitas necessidades e estão recebendo apoio de voluntários.
As instituições públicas não estão ajudando do modo que deveriam, a Vale não está ajudando do modo que deveria, então eu senti uma necessidade de tentar ajudar essa população.


Eu fiquei 4 dias na aldeia vivendo um pouco o dia a dia deles, captando imagens para fazer um documentário e fazendo algumas fotografias também.
É triste demais, porque o rio está completamente morto, quilos e quilos de peixes sendo retirados, urubus sendo achados mortos, um cheiro de carniça muito forte.

O que eu posso lhe dizer, para resumir toda a situação lá é a morte, só que ao mesmo tempo tem um sentimento de vida, de luta, de força e de resistência de toda essa população que não vai abrir mão de suas terras, não vai abrir mão de sua vida nessa região e vai lutar contra esse descaso a população e ao Meio Ambiente da mineradora da Vale.
Então essas fotografias, esse documentário que estou fazendo serão exibidos em Maringá e em São Paulo também. Esses quadros vou colocar à venda esse dinheiro vou reverter a Comunidade.


Agora eles precisam reaver todo o sistema logístico de sobrevivência, eles vão precisar ter reservatório de água, de novas fontes de alimentação, por conta da morte do rio.
Estar em Brumadinho para mim foi uma experiência única, e encontrar pessoas que viveram de corpo e alma, os bombeiros que são verdadeiros heróis que estavam nadando na lama, para dar um conforto aos familiares que ficaram na espera de notícias, para poderem enterrarem seus parentes e darem sequência na vida.
Aquela cena de ver aquela imensidão de lama e destruição parte muito o coração.


Eu espero que a partir de agora, com tudo isso que aconteceu, seja uma lição para que haja menos ganância, para que haja mais fiscalização, para que as pessoas se preocupem mais com a qualidade de vida do próximo, se preocupem com o meio ambiente e não com o lucro, que não é isso que importa na vida, o que importa são as pessoas, o que importa é a natureza, o que importa somos nós, é a comunidade.


 O que a Vale fez deixa claramente em evidência que não é com isso que ela se preocupa.
Os dirigentes da Vale e os donos da Vale se preocupam basicamente com o lucro, e esse lucro em Brumadinho veio às custas de centenas de vidas.

Só espero que a comunidade tenha forças para se reerguer, tenha forças para continuar lutando, enfrente seu luto mas tome isso como um combustível para a alma, e que toda a população enxergue isso como um despertador.






Vamos acordar para a vida porque tem coisas muita mais importantes do que o dinheiro. Nem todo o dinheiro do mundo vai trazer de volta Brumadinho, aquelas vidas de volta e o rio de volta. 



O rio está morto, centenas de pessoas estão mortas, centenas de animais estão mortos e isso não pode ficar impune.
Valeu, um abraço
Breno.